Quando o cuidado não conversa com o caixa: o custo invisível das glosas
Por André Leite e Vinícius Lain, autores de IA em Saúde.
Existe uma fratura silenciosa em boa parte dos hospitais e clínicas: de um lado, a equipe assistencial, tomando decisões clínicas em tempo real, muitas vezes sem pensar — nem deveria pensar, no calor da hora — em como cada conduta vai ser registrada, codificada e justificada para efeito de cobrança. Do outro lado, meses depois, a equipe de faturamento lutando para reconstruir, a partir de um prontuário incompleto ou mal documentado, uma história clínica que sustente aquela cobrança diante da auditoria da operadora. O resultado dessa desconexão tem nome: glosa — o não pagamento, parcial ou total, de um procedimento já realizado.
Glosa não é só prejuízo financeiro, embora seja isso também, e em volume que surpreende muitos gestores quando enfim colocado numa planilha. É sintoma de um problema mais profundo: o cuidado e o caixa, em muitas instituições, simplesmente não conversam entre si. A gestão de receita hospitalar — o chamado RCM, Revenue Cycle Management — deveria começar no momento em que o paciente é admitido, não semanas depois, quando a fatura já foi enviada e negada.
É nesse ponto que a inteligência artificial começa a mudar o jogo, de um jeito pouco visível para quem está fora da área financeira, mas extremamente relevante para a sustentabilidade de qualquer instituição de saúde. Algoritmos de auditoria automatizada conseguem cruzar, em tempo real, o que foi registrado clinicamente com o que está sendo cobrado, sinalizando inconsistências antes que a fatura saia — e antes que a glosa aconteça. Em vez de brigar, meses depois, para reverter uma negativa de pagamento, a instituição passa a corrigir o problema na origem, no momento em que ainda é fácil e barato corrigir.
Há também um efeito colateral positivo, pouco discutido: quando a documentação clínica precisa ser mais precisa para sustentar o faturamento, ela geralmente também fica melhor para fins assistenciais — um prontuário bem preenchido serve tanto para justificar a cobrança quanto para informar a próxima decisão clínica sobre aquele mesmo paciente.
Um hospital financeiramente saudável não é uma discussão à parte da qualidade assistencial — é pré-condição para ela. Sem sustentabilidade financeira, não há investimento em equipe, em tecnologia, em segurança do paciente. A inteligência artificial aplicada à gestão de receita não é, portanto, um tema "administrativo e chato" — é, goste-se ou não, parte da mesma conversa sobre cuidado de qualidade que começa na cabeceira do leito.
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