Os dois pacientes: quem você está realmente tratando?
Por André Leite e Vinícius Lain, autores de IA em Saúde.
Todo médico que atende em um hospital moderno cuida, na prática, de dois pacientes ao mesmo tempo. Há a pessoa deitada na cama, com dor, medo e uma história de vida que não cabe em campo nenhum de formulário. E há o outro paciente — o que existe na tela do computador, feito de números, exames, alertas e caixas de texto. O internista americano Abraham Verghese deu um nome a esse segundo paciente: o "iPatient". E fez um alerta que qualquer médico deveria levar a sério — o iPatient corre o risco de receber mais atenção do que o paciente real.
Não é um problema de tecnologia. É um problema de onde colocamos o olhar. Um prontuário eletrônico bem feito deveria libertar tempo para o exame clínico, para a escuta, para aquele minuto em que o médico olha nos olhos de quem está à sua frente antes de olhar para qualquer tela. Na prática, o que se vê com frequência é o oposto: consultas em que o cursor pisca mais do que o paciente fala.
A inteligência artificial entra nessa história de um jeito contraintuitivo para quem só enxerga IA como mais uma tela, mais um dado, mais um sistema. Bem aplicada, ela pode fazer justamente o inverso: absorver o trabalho burocrático do iPatient — transcrever, organizar, sugerir, alertar — para devolver o médico ao paciente de carne e osso. Ferramentas de escuta ambiental, por exemplo, já permitem registrar uma consulta inteira sem que o médico digite uma palavra, preservando o contato visual que a era do prontuário eletrônico tirou de tantas salas de exame.
O risco real não é a tecnologia superar o cuidado humano. É a tecnologia mal desenhada continuar roubando o tempo que deveria ser do paciente real. A pergunta que fica, e que atravessa boa parte da discussão sobre IA em saúde, é simples de enunciar e difícil de responder todo santo dia na correria de um plantão: no fim desta consulta, para qual dos dois pacientes eu dediquei mais atenção?
É esse tipo de tensão — entre eficiência tecnológica e humanidade do cuidado — que atravessa o livro IA em Saúde, escrito a quatro mãos por um cirurgião e um gestor hospitalar que vivem essa fricção todos os dias, na prática, não na teoria.
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